Eu me recordo do professor Milton Monte já velho. No início da década de 1990 eu era calouro do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFPA e mal devia ter assistido às primeiras aulas. Não me recordo ao certo – devo estar também velho.
Meu pai, Romero Ximenes Ponte, era Secretário de Educação do Estado, e havia uma inauguração de Escola Estadual na Avenida Perimetral. O projetista era o próprio Milton Monte, creio que em parceria com outro professor querido dos alunos da FAU, José de Andrade Rayol. Meu pai se animava a me apresentar ao velho mestre. Eu fui, com expectativa e a ignorância dos jovens. Era uma manhã abafada de Belém do Pará e o professor Milton Monte dava entrevistas. Eu sabia algo da importância dele, claro. Quando meu pai e eu conseguimos chegar até ele vi um senhor caboclo, sorridente e satisfeito com suas janelas geométricas, seu contraste de claro/cor e escuro/madeira envernizada.
Ele parecia compartilhar uma inovação. Conversamos, e ele nos falava do edifício como árvore e da oca como analogia da árvore e, assim, do elo necessário entre árvore, oca, casa. Oikos e Eko, se quisermos. Ele falava convicto, sua fala era consistente e me permitiu uma primeira idiotice juvenil. Perguntei: – Mas o senhor não acha que a madeira teria um problema de segurança? Acho que ele coçou a cabeça e me disse “é, isso é algo que vamos resolvendo”. Em suma, ele foi condescendente com minha provocação incauta de calouro que achava que ia inventar a roda. E buscou mais um salgadinho numa bandeja que passava.
Anos depois uns amigos que faziam Arquitetura e Urbanismo e não gostavam de estudar me chamaram pra uma conversa coletiva, um almoço de um monte de gente que o professor Monte chamava no bufê da Assembléia Paraense da Almirante Barroso para falar do IAB. Era uma convocação. Outro dia é que soube que o Sandoval Ferreira trabalhou com o professor Monte. E o velho congregava, era ouvido. Inclusive por aqueles que perguntavam “Livro? De Arquitetura?”, como se fosse um Alien pousando na Terra. O mau hábito de arquiteto em Belém de não estudar já era vigoroso na época… Lembro do Jorge Derenji respondendo: “por que, não gosta de livro?”. Era fatal.
A Ana Cláudia cita o professor Monte de modo preciso: alguém que alertava para a necessidade de reflexão, de teorização e aplicação de conhecimento. Lembro dele no auditório do CREA-PA, falando de referências e do Interpass do Mosqueiro. Ele sempre pedia perdão, já idoso, por sua vaidade, dizia algo como “me perdoem, mas gosto disso, como um pássaro que pousa na água”. Isso no final dos anos 1990. Sua postura combativa e sua vaidade, talvez, tenham comprado algumas desavenças. Havia uma divisão entre profissionais contemporâneos e o professor Monte parecia não poupar os opositores de críticas. Apesar de afetuoso com os jovens, ou talvez por isso, era mordaz, às vezes, com certos pares.
Lembro dele no Auditório Daniel Campbell da FAU, falando aos estudantes, um dia desses, 2011, sei lá. Todo mundo via sua trajetória com admiração e tinha acolhida nele, afetuoso e satisfeito. Ele queria ser doutor, vejam só. Penso que Tafuri e Frampton nos perguntariam a razão e eu também não sei. A tradição aplicada precisa dos rituais acadêmicos? Até que ponto? Curioso, não? Sempre achei que aquele curso de Arquitetura e Urbanismo batizava alguns professores velhos de Mestres. Nem todos. O professor Monte era um, não por ser velho, nem por seu séquito.
Deve ser porque há certos velhos que sombreiam, acolhem, nutrem e duram muito. Como árvores.


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Eu, caloura de arquitetura, penso: Caramba! Quem será esse senhor Monte? Que senhor é esse morreu e ainda é? Amaria saber mais.
Maysa: clique em Milton Monte para ver o resultado da pesquisa no BF; você saberá o temos publicado sobre o professor Monte.
Pois é, Maysa, não temos um livro do Prof. Monte a nós lembrar suas “referências” e expectativas durante a sua arquitetura. Quem sabe não estás a fazer uma encomenda direta ao Haroldo e ao Juliano, quiça uma coletânea, do que nos proporcionou o Mestre Milton Monte.
Eu o conheci no processo do Concurso do Ver-o-Peso, ONDE COMO JURADO, nós proporcionou seus conceitos de uma cidade amazônica, universal, e singular tal como os pratos que nos levou a conhecer naqueles dias quentes de 1999. Um “corpo de jurados” pesado no conhecimento que trazia e traduzia a expectativa de construir uma obra determinante para os Belenenses e a todos os seus visitantes, Prof. Monte e Vital Maria Pessoa de Melo, debatiam com uma largueza de espíritos que nós assombrava, na maneira de vislumbrar as possibilidades da nova feira com a cidade. Creio que conseguimos, me incluo aí já que como coordenador do concurso pude participar dos debates com muito ouvido e alguns pitacos pra tentar deixar amarradas as condições de discussão, da mesma forma a participação substantiva do então ‘marrento’ e jovial José Maria Coelho Bassalo, meu parceiro desde então e do conhecimento especifico da Dorotéia de Lima e do Alex Nicolaeff, determinantes na costura entre os bens tombados e a história da cidade com a s possibilidades dos projetos concorrentes. Desse período creio que ficaram algumas lições como a curiosidade com o andamento do julgamento dos trabalhos, dos arquitetos autoridades, o então prefeito: Edmílson Rodrigues, a vice-prefeita: Ana Júlia Carepa, e o secretário de Urbanismo o Prof. José Raiol, que jamais interferiram no trabalho do juri, a eles nosso respeito. Também devemos o sucesso do trabalho à participação da arquiteta Beth Almeida, que atuando também na coordenação manteve liberados os caminhos das articulações necessárias ao bom andamento do Concurso que organizado pelo IAB Direção Nacional, contou com a participação ativa do então presidente do IAB/PA o arquiteto Paul Alburqueque. Ao Mestre Milton Monte, como presidente daquele corpo de jurados, coube sobremaneira determinar o caráter daquele julgamento.